Mestre-aluno… O período da montanha

Written by Administrator. Posted in Artigos Mestre-Alunos

Todos nós, em algum momento de nossas vidas, passaremos por um largo período de reflexão e, por conseguinte, de amadurecimento interno. Iremos nos sentir sozinhos, abandonados, infelizes... No passado, poeticamente, os mestres enviavam o aluno para a montanha na intenção de que, este, sozinho, diante da fome, frio, medo, anseio... Adquirisse uma nova visão acerca da vida, dos valores, das verdades duradouras...

Nos dias atuais, este período se traduz em momentos em que, através de desavenças, desentendimentos, correções, mestre e aluno percam a intimidade de tal relação e ambos, munidos de uma boa vontade, passem a refletir melhor acerca daquilo que mais precisamos melhorar.

A história das relações mestre-aluno sempre esteve atrelada à história do conhecimento humano. Na Idade Primitiva, quando o conhecimento do uso da força era vital para estabelecer a sobrevivência, as relações inter-pessoais através da via mais velho e mais novo também mantinham essa base, onde o mais forte comandava o grupo, levando o homem ao poder e a mulher à submissão. O contato com a natureza e a realização dos mitos para explicar seus diversos fenômenos também se refletem na realidade interior como ser humano passível de erros.

Com o avanço do conhecimento e o progresso social, complexificando o mundo das relações humanas, as escolas tradicionais, na visão mestre-aluno; Senpai-kohai, iniciam a procura de uma estabilização, aparecendo a figura do mestre como progenitor do conhecimento do discípulo projetando a imagem ilusória de que um pertence ao outro - e os frutos desse envolvimento, gerações sucessivas de alunos.

Ajudando um amigo daqui da Europa a retomar a boa relação com seu antigo mestre de karate, escutei:

“Sinto falta de um relacionamento duradouro, correto, sustentado por legítima afinidade. Todos olhando na mesma direção, empenhados em cultivar a paz, o trabalho do bem, a amizade, a compreensão... Seria o paraíso! Vejo-me como um retardatário, preso a compromissos decorrentes de besteiras que andei cometendo purgando meus débitos. Certamente aprontei muito!”

Quiçá, tenha sido apenas o período da montanha que ele necessitava viver, não?

Cada um reflete dentro daquilo que lhe é mais freqüente em suas consciência. Natural e normal dentro da via da convivência. Logo o verdadeiro mestre, pensa:

“Que se comece pelo ardor, logo o amor, preparando-se pela qualificação para servir bem. Comecemos a sentir o problema do próximo, e a melhor maneira de senti-lo é colocar-se no seu lugar, fazendo por ele o que gostaria que lhe fosse feito. Com esse exercício nasce uma onda de ternura, um sentimento de solidariedade e, a partir daí, começa-se a dizer: “Meu Deus, eu sou gente, eu sou uma célula do organismo universal; a sociedade caminha na minha vida”.



“Quando morreu a esposa de Chuang Tsu, Hui Tzu foi apresentar-lhe condolências. Ele encontrou o viúvo sentado no chão, cantando, com as pernas esparramadas em angulo reto e marcando compasso numa tigela.

"Viver com a esposa", exclamou Hui Rzu, "e ver o filho mais velho tornar-se adulto, e depois não verter uma lágrima sobre o cadáver dela - isto seria muito ruim. Mas tamborilar numa tigela, e cantar, certamente, isso é o cumulo.

"De maneira alguma" respondeu Chuang Tsu. "Quando ela morreu, não pude deixar de ser afetado pela sua morte. Logo porém, lembrei que ela já tinha existido num estado anterior, antes do seu nascimento sem forma ou mesmo substância; que, embora naquela condição incondicionada, foi acrescentada uma substancia ao espirito; que essa substância então assumiu forma; e que o próximo estágio foi o nascimento; e agora, em virtude de uma mudança adicional, ela está morta, passando de uma fase para outra, como a sequência da primavera, verão, outono e inverno. E, enquanto ela está assim deitada, adormecida na Eternidade, ficar por aí chorando e lamentando seria para mim proclamar-me ignorante dessas leis naturais. Portanto me abstenho.” - Autor desconhecido ou ignorado





Referências:

(Divaldo Pereira Franco, em “Novos Rumos para o Centro Espírita”, Editora Leal, 1999).