Mestre-aluno… Da rigidez à profundidade!

Written by Jordan Augusto. Posted in Artigos Mestre-Alunos

 

“Estou para realizar a minha última viagem, um grande salto no escuro.” (Thomas Hobbes)

A sabedoria oriental, ao contrário da ocidental, acredita que o verdadeiro mestre é aquele que provoca transformações, que não hesita em se colocar diante do aluno para que este se converta em uma pessoa melhor. Todavia, muito se confundiu, e muito ainda se confunde, fazendo da vida moderna um ponto de apoio para a minúscula visão do técnico que aperfeiçoa somente a condição material.

Em qualquer que seja a prática desportiva, independendo da cultura, raça, sexo, e etc., a vida expande e se contrái conforme nos adaptamos às suas realidades. A linha de reverberação que existe entre a relação mestre-aluno não pode, jamais, deter-se apenas na idéia da construção corporal ou mesmo terrenal; haja vista que a convivência entre humanos se dá, também, pela necessidade de reajustes em outras dimensões. É por isso que não podemos confundir a relação existente entre aquele que busca a via de “auto-superação” e o que busca o viés que supera apenas os demais – evidenciando um artefato competitivo e vaidoso.

Certa vez um aluno, no alto de sua vaidade, perguntou-me: “...se fulano disse que eu tenho nível para a graduação de professor, porque eu não posso fazer o exame?” É simples. – respondi-lhe. Falta-lhe o mais importante: humildade! Ter uma técnica boa não é o mais difícil; tudo o que é “construível” através da repetição não passa de um adestramento. É difícil fazer com que uma mente comum (pautada somente dos valores externos), subjugada pela ilusão dos sentidos, compreenda que a realidade dos treinamentos, sejam eles quais forem, existem para que nossa vivência pessoal se torne ao menos suportável.

Esta curiosa colocação e, por conseguinte, reflexão, remete-nos ao ponto onde não exercitar a flexibilidade da consciência, ou mesmo a visão que vai além das formas, transforma o ser em uma parte de uma fração de atos que, em vias de sua própria e conseqüente evidência, deixa-o à mercê da queda ou do triunfo – tão presentes neste mundo de aparências. Logo, não é de agora que nisto se baseia a vida humana e o destino do homem; subir e descer, vencer e ser derrotado... Este destino nos é narrado, desde a pré-história, e até hoje optamos por não aprender. “Os costumes resultam do hábito convertido em caráter.” – dizia Thomas Hobbes.

Diversas foram as vezes em que vi, e refleti, a arrogância fazer parte da tristeza humana; seja na imagem de um amigo, aluno, conhecido, parente... Nos tempos modernos esse destino de ignorância, arrogância, muito tem contribuído para uma realidade que não vai além da revolta e da dor; cada um a sente de uma maneira que o faz repensar as suas verdades (para bem e para mal) e redesenhar seus sonhos. Em profundidade, penso que é necessário que o arrogante veja em si a consequência de seus atos, tal como o ignorante se veja ignorado!

Dentro deste viés, ou através dele, existe uma passagem para a transgressão que deve ser encontrada, uma realidade tangível que o mundo deve viver. De todas as formas, se o mestre é aquele que indica o caminho ao aluno (nada mais), a vida resvala em motivos mais relevantes que somente aqueles que moveram as nuvens do passado e do presente indo em direção a um futuro incerto; não são poucos os que sabem da dificuldade de seguir adiante. Mestre, também, é aquele que sabe quando é tempo de parar; de já não mais ensinar... A razão? É simples: ser livre! Tanto o mestre quanto o aluno comungam de uma mesma realidade que nos dá a condição de sermos melhores, mais justos, mais verdadeiros com nós mesmos... “...e o arrogante?” – pergunta-me um aluno que começa agora seus estudos. Aquele que se rebela e abusa da sua liberdade experimenta, então, a necessidade da dor. Como dizia Ubaldi, “...mas não da dor pura e simples, em si mesma uma idéia estéril; e sim de uma dor que não possui, e não pode possuir outro sentido que o de instrumento de redenção...”

“Impressões sensoriais não bastam para construir e preservar uma vida” (Thomas Hobbes)