O dogma cotidiano no século XXI

Written by Jordan Augusto. Posted in Artigos e Crônicas

 

“Mas a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema, num dogma, nem mesmo no desespero inteiro do homem.” (Miguel Torga)

Diversos projetos incluem minha participação neste ano de 2017. Em um dos vários que participarei organizado pelo governo espanhol e a “Cadena ser”, a proposta que nos chega, junto com ilustres palestrantes, é falar sobre a língua de Deus.

A semana santa na Espanha – e em todo o mundo - é algo, verdadeiramente, divino. Os cânticos, a fé, a energia das pessoas.... A via-crúcis.... Ufff!... Esta parte final: quanto sofrimento! Todavia, estar na posição de quem é crucificado, indubitavelmente, muda a perspectiva. A questão é que por mais que os fiéis observem o percurso com dor, compaixão, paixão, amor, e etc., a verdade de quem vive o ato em primeira pessoa está além da forma, das impressões, é incomensurável! O motivo, cada um sente, ou sentiria, de maneira única.

Por outro lado, condicionar algo apenas por uma visão, impressão, pode estar manifestando ao acaso um futuro questionador. Sim, a verdade condicionada está sujeita à mudança e, assim, está aquém do absoluto. Não se pode falar de fé apenas através de especulações e imaginação. Já dizia Santo Agostinho: “Não é tanto o que fazemos, mas o motivo pelo qual fazemos que determina a bondade ou a malícia.” A fé se manifesta de maneira individual, por isso deve ser respeitada e compreendida.

Voltando ao evento citado acima, se pensarmos que ela se manifesta de forma particular para cada um de nós, falar sobre a língua de Deus nada mais é que falar sobre como nós percebemos esta forma de comunicação. Se colocarmos o universo como algo inegavelmente dualístico, onde os extremos de uma maneira ou outra se completam, como se pode explicar essa estrutura dualística em um universo cuja base deve ser unitária?

Está claro que somos seres repetitivos, nossos hábitos se repetem diariamente e quase nada muda. O que, por sua vez, leva-nos a pensar que a realidade de cada um é o que nos torna especiais. No entanto, se analisarmos através da antropologia, poderíamos pensar: o que seria do homem se não existisse um freio e uma limitação?

A idéia complexa da visão de Deus, uma vez que ele não impossível, mas improvável dentro da cosmogonia, surgimos e ressurgimos através de nossas necessidades. Cada um explora em si o divino através da necessidade que manifesta. O ponto de encontro entre o sagrado e o profano, se assim podemos dizer, não é outro senão o próprio ser humano em si. E isso nos leva ao processo de uma constante reformulação de nossas idéias.

Contudo, isso só não ocorre - a renovação de nossas impressões - quando estamos impregnados pelo dogma, pela fé. E, diga-se de passagem, nada mais bonito que a fé; a capacidade de acreditar em algo que não se vê! Logo, esta capacidade é o que torna um ser humano diferente do outro. É por isso que cada um necessita beber de um tipo de água diferente. O que é muito interessante! A vida fervilha em suas diferenças e não existe desafio para a sabedoria maior do que ser capaz de conviver com as diferenças.

Aqui, a idéia da sabedoria implica em ter a capacidade de adaptar-se a qualquer contexto cultural. A razão disto, e quem sabe algo maior, chama-se tolerância, grandeza..., atuar com magnânima capacidade de compreensão frente a necessidade do outro. Por conseguinte, ser capaz de integrar-se com a natureza fundamental dos seres e coisas. Nada mais que uma forma de ser e fazer uso da compreensão. Não uma qualquer, mas esta que é transcendente à forma.

Conta-se que dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:

"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"

"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza."