O mecanismo ascensional dentro da média

Written by Jordan Augusto. Posted in Artigos e Crônicas

“Uma criança, cega de nascença, só sabe de sua cegueira se alguém lhe conta.” (Stephen King)

Você já se perguntou se a vida que nos leva a estar dentro e fora de nossas realidades, esta vida que traduz você para você em seus segredos mais íntimos, possui um significado verdadeiro? Se seguirmos por este viés, para os mestres mais experimentados nós adoecemos por não conhecermos o nosso “eu” mais íntimo. Isso significa que, se observarmos por esta perspectiva, a vida que nos obriga a conquistar (esta que nos faz viver em níveis de condições maiores e melhores), no final, resulta ser a mesma que nos obriga a desistir. Sim, os ciclos se iniciam e se encerram; viramos as páginas do livro de nossa vida.
Quiçá, em decorrência da própria idiossincrasia, ao seguirmos a trajetória de nossa jornada pessoal não nos seja difícil constatarmos que a impressão que nos tira da estagnação é a mesma que travessa nossa consciência em busca de respostas. Por outro lado, a mente, biológica e associativa, forte em emergir (no sentido de emergência) direciona este mesmo “eu” para águas mais tranquilas ou turbulentas. A normalidade em suas condições mais limitadas fomenta um tipo de panorama muito mais indicativo porque promove, para bem e para mal, toda uma nova e delineada reflexão sobre o processo de autodescoberta. Ainda bem!
É fácil, uma vez que ao submergirmos em nossas íntimas necessidades, se assim podemos dizer, este mesmo “eu” nos faz redescobrir as nossas mais profundas debilidades. “A riqueza pode servir ou governar o seu possuidor.” – disse Horácio.
Em todos nós existe uma via de acesso às realidades que cedo ou tarde nos indicam o melhor caminho em nossa história pessoal. Seja como for, até porque nossas vias mentais de maior entendimento surgem em decorrência de nossas realidades mais íntimas, cada um é aquilo se traduz da maneira que lhe for mais conveniente.
Dado este fator - humanos no plural que somos -, o que nos torna parte deste mecanismo de redescoberta sucumbe aos processos que indicam uma melhor organização de si mesmo. Ora, se ascender, subir, ir além das formas - para mim o ponto de maior exatidão -, representa estar presente em suas dissonâncias para, por conseguinte, harmonizar o essencial – e isso diziam os mestres -, esta ascensão não pode ser outra senão a própria redescoberta de si para si.
Para os mestres mais antigos, redescobrir-se significa conquistar o conhecimento que lhe é pertinente em suas zonas de maior conflito. É como um cientista que através de suas reflexões dá um salto consciencial e cria um novo método para melhorar aquilo que já estava em uso. Assim somos nós, não?
Quando falamos em mecanismo ascensional, este surge em decorrência de novas possibilidades, de novas rotas a serem percorridas. Em contrapartida, se o ser transita dentro de valores maiores que possibilitam algum tipo de compreensão, mas, insiste e vive de ilusões insustentáveis, ao mesmo tempo que avança, sacrifica as suas possibilidades maiores em função do menor; contudo, sem a devida lucidez.
Pode ser lógico uma vez que, no mesmo campo em que se busca a ascensão, encontramos, também, o extremo oposto. Isso significa que a máxima afirmação se complementa com a negação máxima, e vice-versa. Por causa do natural antagonismo das duas posições, uma exclui a outra e tende a tudo absorver.
Se a sabedoria é grande força que impera em todos os aspectos, e esperamos que assim seja, todo este caleidoscópio de possibilidades nada mais é que o ser que emprega consciente, ou não, os fins para o qual se dirige. Neste instante a ascensão pessoal se dá conta de que bem e mal se adormecem frente ao que seriam os cenários menores com personagens menores. É o todo que nos leva ao encontro onde nós estamos.
O piloto Antoine Saint-Exupery (1900-1944), um dos maiores escritores franceses deste século, tornou-se mundialmente conhecido com seu “O pequeno príncipe”. Aqui, um trecho de “Vento, areia, estrelas”:
“É difícil descrever o que se passa em minha alma. Olho para o céu vejo milhares de estrlas soltas pelo universo, enquanto eu permaneço preso a estas areias.
Mas, embora meu corpo esteja aqui, um pouco de mim é capaz de viajar por este céu, e levar-me a mundos desconhecidos. Então, vejo que meus sonhos são tão reais e concretos como estas dunas, esta lua, estas coisas que me cercam.
Meus sonhos permitem que eu crie e habite num reino mais poderoso que este império francês. Eles vão me ajudar a construir o futuro, uma casa – porque a beleza das casas não reside no fato de que são feitas para abrigarem homens, mas na maneira em que são concebidas.
No dia em que eu construir minha casa, quero que ela consiga dizer algo. Que ela seja um sinal, um símbolo. Deixarei que a casa de meus sonhos surja do meu interior, como a água surge da fonte, ou a lua do horizonte”.
Sant-Éxupery jamais realizou este sonho; o avião que pilotava desapareceu, cruzando o Mediterrâneo, durante a II Guerra Mundial.