Morte… a reflexão como arguição

Written by Jordan Augusto. Posted in Artigos e Crônicas

Epicuro diz algo curioso: “A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais.”
Ontem pela manhã enterrei meu pai. Viajei muitos mil quilômetros para ver e constatar, através do exemplo daquele que me trouxe a vida, que o final não levamos nada. Independentemente de onde viemos, está mais do que claro que neste aspecto o futuro para todos é igual.
Por mais que eu soubesse que meu pai era uma pessoa querida, o capítulo final de sua história foi a peça chave para intensos e curiosos reajustes. Uma quantidade imensa de pessoas veio se despedir e, como curiosos que somos – os humanos -, ver os filhos que há muito tempo já não residiam no Brasil; neste caso, eu e uma de minhas irmãs.
Os anos passam e as pessoas seguem suas rotas pessoais traduzindo para si e os demais aquilo que lhes parece ser o mais importante. Seja como for, digo isso porque as traduções variam e as circunstâncias delineiam o padrão pessoal de cada um, a morte é o que traz um sentido real à necessidade de viver. Todo rei, pessoa famosa, importante..., no final de seus dias não conseguiu ir para outro lugar que não estivesse a morte pelo meio.
Por outro lado, a experiência em primeira pessoa nos ensina que na hora da morte, passagem, final... seja como quiserem chamar, é ela que toca o extremo da frieza e faz com entre calor no coração dos que ficam. Em outras palavras, é o que traz a reflexão que, por conseguinte, volta a oferecer sentido à vida dos que aqui ficam.
Ainda que esta seja diferente para cada um de nós, e mesmo a despeito de todos os míopes e de todos os fracos que a maldizem, é a sua presença que muda as possibilidades do “por vir”. A vida em sentido de expansão não pode se tornar plena sem a experiência da perda; neste caso, o luto.
Já em outro viés, se observarmos bem, a pedra angular das relações entre os que vão e os que ficam é aquela que se converte no ponto de encontro: onde estas pessoas se encontraram? Ou onde elas se encontrarão? Cada caminho, religioso ou não, tenta definir esta última possibilidade.
Já na primeira observação, o meio pelo qual acontecemos, todos, não pode ocorrer sem a intervenção de uma outra pessoa. Por mais que o mundo científico avance e traduza o ser humano de hoje como um robô, atrás de cada momento, palavra, há uma real vibração de vida espiritual, um verdadeiro tormento de paixões e resoluções! O que significa que vida e morte caminham constantemente no jardim de nossa casa.
Diante da morte, acredita-se que o espírito é qualquer coisa que supera todas as humanas afirmações utilitárias. Será? Todos estes dias de UTI, de entradas e saídas, de tensões que superam as medidas humanas, a vida não é, e nem poderia ser, um mecanismo unicamente de conquistas materiais. Em contrapartida, está a vida cheia de nuances que tocam estes dois mundos. “Para quê preocuparmo-nos com a morte? A vida tem tantos problemas que temos de resolver primeiro.” - disse Confúcio.
Conta-se que três operários trabalhavam numa obra, quando um homem aproximou-se.
“O que você está fazendo?” - perguntou ao primeiro operário.
“Estou ganhando a vida!” - disse, mal humorado.
O visitante virou-se para o segundo operário e fez a mesma pergunta.
“Estou quebrando pedras” - respondeu ele.
Finalmente, o visitante se aproximou do terceiro homem e fez a mesma pergunta.
“Estou construindo uma catedral” - foi a resposta.
Os três faziam a mesma coisa. Mas apenas o terceiro compreendia sua tarefa.